Terror sem nome. Nada define melhor a morte de um grupo de crianças no sudeste do país do que esta expressão utilizada pelos psicanalistas, tamanha a angústia que não pode ser descrita por palavras. Precisamos entender, encontrar uma explicação racional, mas não conseguimos.

Wellington de 23 anos entrou calmamente na escola que outrora estudava, foi ate a sua antiga sala de aula e deu trinta disparos matando 12 crianças e ferindo outras 12, a maioria meninas. Deixou uma carta enigmática, de conteúdo bizarro e psicótico.

Será possível entender esta tragédia? Nos meios de comunicação jornalistas levantaram as mais diversas teorias e apontaram responsáveis: falta de segurança nas escolas, falha no programa de desarmamento nacional e ate a fúria islâmica foi acusada de fomentar o massacre.

Na minha opinião, o problema é mais abrangente e tem ligação direta com o descaso à saúde pública. Welligton desde a infância dava sinais de patologia mental esquizofreniforme. Não tinha amigos, vestia-se com roupas esquisitas e mofadas. Nos últimos meses estava há dias sem tomar banho e deixou a barba crescer ate o peito. Saia para trabalhar numa fábrica de salsichas e caminhava conversando com espíritos, segundo seus vizinhos. Adorava o Deus Católico do mesmo modo que elogiava Maomé. Perdia-se em delírios religiosos e grandiosos. Nunca teve namorada, alias considerava qualquer contato sexual como sinal da impureza bestial. A mãe de Wellington, segundo relatos, sofria de Esquizofrenia e familiares notavam que a cada dia o quadro  do mesmo agravava-se

Pergunto: Porque este indivíduo nunca foi visto por um psiquiatra? Porque nunca foi levado por familiares a um hospital para internação se estava com este comportamento? E os serviços de CAPS e PSF, porque não foram ativamente em busca deste paciente? A negação é total.

A situação é alarmante. Em revisão feita mês passado no próprio site do SUS verifiquei que o investimento diário do Governo Federal em diversas especialidades médicas é de cerca de 32 centavos/indivíduo/dia. Os investimentos em psiquiatria não passam de 03 centavos/indivíduo/dia. Coincidência?

Outro fato interessante é o fechamento de leitos psiquiátricos. No Ceará só este ano foram inativados cerca de 200 leitos. Para onde vão estes pacientes? Respondo: tornam-se um fardo tão grande para as famílias que são abandonados por estas. Agora indigentes, morando nas ruas e sem tratamento podem ficar agressivos e ser presos. Calcula-se que cerca de 30% da população presidiária brasileira é constituída de doentes mentais, mas especificamente psicóticos e retardados mentais, que não receberam tratamento adequado.

O que o Governo e  nós como população temos feito com o doente mental é negligência, omissão de socorro, crime. Repete-se o que aconteceu com os Leprosos e Tuberculosos no passado

Nega-se a doença mental e a psiquiatria. Nega-se internações psiquiátricas.

Se não existe Psiquiatria, a sociedade deverá responder pela conduta patológica destas pessoas que, com tratamento adequado, poderiam ter uma vida digna e dentro de suas capacidades.

É preciso abrir os olhos, enquanto ainda é tempo.

David de Lucena é médico psiquiatra.