Archive for Janeiro, 2013


Risco de demência em pacientes com insônia e uso crônico de hipnóticos: um estudo populacional de coorte retrospectiva

(“Risk of Dementia in Patients with Insomnia and Long-term Use of Hypnotics: A Population-based Retrospective Cohort Study”)

Chen PLLee WJSun WZOyang YJFuh JL

PLoS One. 2012;7(11):e49113

Abstract: Introdução: As medicações hipnóticas tem sido associadas à demência. Entretanto, a relação entre insônia, hipnóticos e demência ainda é controversa. Nós procuramos examinar o risco de demência em pacientes com insônia crônica e a contribuição dos hipnóticos. Métodos: Os dados foram coletados do banco de dados do Taiwan’s Longitudinal Health Insurance. A coorte do estudo englobou todos os pacientes com idade de 50 anos ou mais com o primeiro diagnóstico de insônia feito de 2002 a 2007. A coorte de comparação consistiu de pacientes escolhidos randomicamente, apreados pela idade e sexo. Cada paciente foi individualmente seguido por 3 anos desde a data do diagnóstico de insônia, para se averiguar se o paciente teve diagnóstico de demência. A regressão de Cox foi usada para se estimar as hazard ratios (HRs) e os intervalos de confiança. Resultados: Nós identificamos 5693 indivíduos com insônia crônica e 28465 indivíduos sem. Após ajuste para hipertensão, diabetes mellitus, hiperlipidemia e AVC, aqueles com insônia crônica e idade entre 50 a 65 anos tiveram maior risco de demência (HR 5,22, IC95% 2,62-10,41) que aqueles com idade maior que 65 anos (HR 2,33, IC95% 1,9-288). O uso de hipnóticos com meia-vida mais longa e em doses altas predisseram um risco aumentado de demência. Conclusões: Os pacientes com uso de hipnóticos em longo prazo têm um risco de demência duas vezes maior, especialmente aqueles com idade entre 50 a 65 anos. Além disso, a dose e meia-vida dos hipnóticos usados deve ser considerada, por conta de uma exposição maior a estas medicações leva a um risco maior de desenvolver demência.

Comentário: Continuando a sequência de artigos que falam dos efeitos de medicações sobre a cognição, é sabido que o uso crônico de medicações hipnóticas está associado a um declínio cognitivo e que podem piorar a capacidade funcional de pacientes já com diagnóstico de demência. Este belo trabalho de Taiwan, mostrou que, em uma população de pessoas com insônia crônica e com uso prolongado de hipnóticos (benzodiazepínicos – BZP e não-benzodiazepínicos – não-BZP), há um risco aumentado em 2 vezes de se desenvolver demência em pelo menos 3 anos, e quanto maior a dose usada, maior o risco. Se a pessoa estiver em pleno uso do hipnótico, seu risco chega a 4 vezes mais de ter demência futuramente, e se interromper o uso, há redução do risco. Segundo o trabalho, não houve diferença no risco de demência se a pessoa usou BZP ou não-BZP, contudo, observo que a proporção de pessoas que usam hipnóticos não-BZP (zolpidem, zolpiclone etc) no grupo com insônia foi muito alta (50%), e trazodona não foi incluída no trabalho – eu acredito que esta realidade é bem diferente da brasileira, onde percebemos o uso indiscriminado de BZP, com ou sem orientação médica. O fato de BZP causarem dependência psíquica e química também me faz acreditar que, talvez, este estudo não tenha conseguido mostrar esta diferença pela característica da amostra. Contudo, é um ótimo trabalho e reforça algo que nós, neurologistas, reforçamos no dia-a-dia: o uso indiscriminado de hipnóticos é muito deletério e pode levar à demência. Artigo de leitura obrigatória (e o acesso é gratuito!).

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23145088

Créditos: http://neuropolaca.wordpress.com/2012/12/

Além do fascículo arqueado: consenso e controvérsia na anatomia das conexões da linguagem

(“Beyond the arcuate fasciculus: consensus and controversy in the connectional anatomy of language”)

Dick AS, Tremblay P

Brain. 2012 Dec;135(Pt 12):3529-50

Abstract: O crescente consenso de que a linguagem esteja distribuída em redes corticais e subcorticais de larga escala trouxe consigo um foco sobre a anatomia das conexões da linguagem, ou como vias particulares de fibras conectam regiões com a rede de linguagem. Compreender a conectividade da rede de linguagem poderia fornecer vislumbres críticos a respeito da função, mas investigações recentes usando várias metodologias tanto em humanos quanto em primatas não-humanos geraram padrões de vias conflitantes fundamentais para a linguagem. Algumas destas vias classicamente consideradas como associadas à linguagem, como o fascículo arqueado, sofrem o questionamento de serem mais conexões de domínio geral que especializadas, o que representa uma mudança radical nesta perspectiva. Outras vias descritas em primatas não-humanos ainda precisam ser confirmadas em humanos. Nesta revisão, nós examinamos o consenso e a controvérsia nos estudos de conectividade de projeções da linguagem. Nós focamos em sete vias de feixes – o fascículo longitudinal superior e fascículo arqueado, o fascículo uncinado, a cápsula extrema, o fascículo longitudinal médio, o fascículo longitudinal inferior e o fascículo fronto-occipital inferior – que têm sido propostos para embasar a linguagem em humanos. Nós examinamos os métodos, em humanos e em primatas não-humanos, que foram usados para se investigar a conectividade destas vias, o contexto histórico que levou à compreensão atual de suas anatomias, e os correlatos funcionais e clínicos de cada via referente à linguagem. Nós concluímos com um desafio aos pesquisadores e clínicos para estabelecerem um quadro coerente, no qual a conectividade das vias de feixes possa ser sistematicamente incorporada ao estudo de linguagem.

Comentário: As bases neurobiológicas da linguagem foram estabelecidas por grandes pioneiros, hoje bastante conhecidos pelos neurologistas, como Karl Wernicke e Paul Broca, no fim do século XIX. O modelo criado, principalmente pelo primeiro, mostrou que áreas corticais especializadas no hemisfério esquerdo (lobo frontal inferior e lobo temporal posterior) eram conectadas por uma via expressa, o fascículo arqueado, integrando compreensão e expressão, numa fantástica harmonia. O problema é que este modelo tem mais de 100 anos, e cada vez mais evidências mostram que é extremamente simplista e obsoleto. Este ótimo artigo da Brain faz uma extensa revisão da literatura desta área, mostrando as controvérsias surgidas recentemente pelos novos achados de técnicas como DTI e sua tractografia. Em resumo, o modelo mais aceito atualmente é que existem dois sistemas paralelos de linguagem: um relacionado à execução da linguagem, sua articulação/expressão (sistema dorsal) e outro com a compreensão e entendimento/semântica das mensagens (sistema ventral). O clássico modelo área de Wernicke-arqueado-área de Broca seria uma parte apenas do sistema dorsal. Mesmo sendo um texto longo, creio que todo neurologista com alguma preocupação por neurofisiologia, semiologia e topografia deveria ler este artigo, pois ele mostra que nossa concepção geral a respeito de linguagem, de nossos livros-texto clássicos (vide “O Exame Neurológico”, de DeJong), está bastante antiquada.

Link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23107648

Créditos: http://neuropolaca.wordpress.com/2013/01/